terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Niterói vivia há 50 anos o maior incêndio com vítimas do Brasil

Há 50 anos Niterói vivia seu pior pesadelo, o Brasil vivia seu maior incêndio com vítimas e o setor de entretenimento do país vivia sua maior tragédia: o incêndio do Gran Circo Norte-Americano, com 503 mortos, das quais 70% delas eram crianças. A tragédia foi a primeira e a maior das três grandes catástrofes que aconteceram na cidade nos últimos 50 anos - as outras foram a explosão do Bazar Santa Bárbara, em 1991, que matou 28 pessoas e atingiu aproximadamente 100 casas; e o deslizamento do Morro do Bumba, em 2010, culminando com o saldo de 44 mortos.
Mauro Ventura lança livro sobre o maior incêndio do Brasil, ocorrido em Niterói, que matou mais de 500 pessoas em 1961Foto: Arquivo
destroços do picadeiro e arquibancada após o incêndio

O curioso que passados 5 décadas, embora as cenas ainda estejam bem vivas na memória da população de Niterói, devido as perdas familiares e as marcas físicas nos sobreviventes, há um clima de silêncio, e não foram organizados eventos de homenagens às vítimas nesse cinquentenário, como também até hoje nunca foi construído um memorial na cidade, inclusive em agradecimento às centenas de heróis famosos e anônimos.

Apesar da dimensão dos eventos e do seu impacto até hoje, são poucas as lembranças nesse cinquentenário - além de poucos matérias de jornais e uma solenidade de homenagem aos profissionais de saúde da época -, é o lançamento do interessantíssimo livro do jornalista e pesquisador Mauro Ventura, "O Espetáculo Mais Triste da Terra", que análise a história da tragédia e seus desdobramentos na vida da cidade e do Brasil desde então.
  • Incêndio no Gran Circo: 50 anos de uma das piores tragédias de Niterói



    Por: Ricardo Rigel 02/12/2011 O FLUMINENSE

    Cinquenta anos depois, o escritor Mauro Ventura pesquisou sobre o maior incêndio do Brasil, ocorrido na cidade, que matou mais de 500 pessoas em 1961

    O escritor Mauro Ventura Foto:Divulgação/Francisco Moreira da Costa
    No dia 17 de dezembro de 1961, os risos e aplausos que ecoavam do Gran Circo Norte-Americano, que se apresentava em Niterói, deram lugar ao silêncio e à perplexidade. Acontecia ali a maior tragédia circense da história e o pior incêndio com vítimas do Brasil.  Cinquenta anos depois, o escritor Mauro Ventura lança, no próximo dia 13, na Biblioteca Pública de Niterói, um minucioso trabalho de apuração que durou cerca de dois anos e meio: o livro O espetáculo mais triste da terra. A obra revela uma trama que mistura drama e heroísmo, oportunismo e solidariedade, dor e superação.

    O que te motivou a recontar a tragédia do Gran Circo Americano?
    Eu trabalhava ao lado das pilastras do Caju, onde o profeta Gentileza fez suas inscrições. Aquelas frases e aquela figura me despertaram a curiosidade. Ouvi dizer que ele tinha perdido toda a família num circo de Niterói - história que só depois vim a descobrir ser mentira. Mais tarde, li Ivo Pitanguy escrever na autobiografia que o atendimento às vítimas do circo tinha sido a experiência que marcou mais fortemente sua vida. Resolvi pesquisar o tema e vi que em poucos anos ia ser o cinquentenário da tragédia. E notei que não havia nada escrito sobre o assunto, a não ser reportagens. Ficou a pergunta: por que algo que repercutiu em escala mundial havia sido esquecido? Essa questão me intrigou. Até que percebi que, na verdade, existia a memória do episódio, mas ele havia sido tão traumático que as pessoas não queriam lembrar. Era uma lembrança presente, mas incômoda. E, depois, conversando com algumas pessoas, entre elas parentes, vi que quase todo mundo tinha uma história para contar: ou quase foi, ou conhecia alguém que foi, ou era parente de alguém que foi.
    Foi difícil ter que ficar por mais de dois anos pesquisando sobre uma das maiores tragédias que o País já presenciou? Foi um desafio emocional também?
    Foi muito difícil, porque tive que conciliar com o trabalho no jornal. E foi muito complicado emocionalmente, porque coincidiu com o nascimento de minha filha, Alice. Não só eu não tinha tempo para vê-la como ainda estava lidando com a morte de muitas crianças.

    Durante o período de apuração qual foi o personagem que mais te marcou? Por quê?
    A Lenir (vítima do incêndio) me marcou muito, porque é a pessoa com mais alegria de viver que já conheci, apesar de ter perdido o marido e os filhos, e ter se ferido gravemente. Maria Pérola, chefe dos escoteiros, também, pela entrega e dedicação às vítimas.
    José de Datrino é um personagem marcante na história de Niterói e do Rio de Janeiro. Em que momento do livro o Profeta Gentileza ganha destaque?
    José Datrino aparece em vários momentos do livro. No início, ele é um pequeno empresário de transportes, e está em casa quando ouve a notícia da tragédia. Sente algo estranho, e, seis dias depois, na véspera do Natal, ouve um chamado divino (há quem ache que foi um surto psicótico). Depois, ele aparece em outro momento, quando larga a família - mulher e cinco filhos - e o trabalho, e vai morar no terreno do circo, consolando os parentes das vítimas. Constrói o seu “paraíso”, com horta e poço, e fica quatro anos lá. E ele aparece no fim, quando falo sobre sua vida após o incêndio.
    Quem estuda a trajetória de vida de Datrino afirma que sua história renderia um livro. Concorda com essa ideia? Você tem vontade de escrever sobre a vida de figuras como o Gentileza? 
    Não só renderia como já rendeu, Univvverrsso Gentileza, do professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Leonardo Guelman, maior especialista no assunto do País.
    Como essa tragédia ajudou a impulsionar a cirurgia plástica brasileira? Qual foi a importância do cirurgião plástico Ivo Pitanguy neste evento?
    Como diz o professor Paulo Knauss, da UFF: “Não é à toa que a cirurgia plástica no Brasil é tão desenvolvida. Ela teve nessa tragédia seu maior campo de pesquisa e experimentação na história.” É preciso entender que os médicos se viram obrigados a lidar ao mesmo tempo com um volume imenso de queimados, e, ainda por cima, tendo que trabalhar em condições precárias, e com o principal hospital da região, o Antonio Pedro, inicialmente fechado. Um dos cirurgiões plásticos, Liacyr Ribeiro, diz que em um ano lá ele atendeu mais queimados que na vida inteira. Pitanguy fala que a tragédia evidenciou a importância da sua especialidade, até então vista pelos brasileiros como cosmética. Graças ao prestígio de Pitanguy, chegou do exterior um carregamento de pele liofilizada, que foi usada no tratamento. Era algo novo, e os médicos tiveram que aprender ali, na hora. Também veio a equipe do argentino Fortunato Benaim, que já estava preparada para casos de incêndio. Um médico me disse que aprendeu muito vendo a forma como eles trabalhavam. Com relação à participação de Pitanguy, se você olhar todo o noticiário sobre a tragédia nesses 50 anos verá que a única referência feita a um médico é ele.
    Só que o atendimento foi em forma de mutirão. E esse mutirão era formado principalmente pelos médicos de Niterói. Pitanguy teve uma participação muito importante, seja porque todos os cirurgiões plásticos tinham sido formados por ele, seja porque graças a seu prestígio os pacientes receberam a pele e outros remédios de fora, seja porque serviu de referência para outros médicos, seja porque atraía a atenção das autoridades para o problema. Mas os médicos de Niterói passaram mais de um ano atendendo diretamente as vítimas e nunca tiveram reconhecimento algum.

    O número de vítimas mortas no incêndio do circo é contestado até hoje. Durante a apuração chegou a números diferentes dos divulgados pelas autoridades?
    Essa questão do número de mortos é polêmica. Oficialmente, foram 503, mas há quem fale em 200, assim como há quem fale em 1.500. Os cirurgiões plásticos Ramil Sinder e Pitanguy, que fizeram um trabalho sobre o atendimento, estimam em cerca de 400 os mortos. Nunca vai se chegar a um resultado preciso, porque há vítimas de fora de Niterói que foram transferidas e morreram em sua cidades; há pessoas que até hoje não apareceram; há muitos corpos que foram enterrados sem registro; e há o fato de que qualquer médico estava fornecendo atestado de óbito.
    Há controvérsias sobre a verdadeira causa do incêndio. Nem as famílias aceitaram a versão de que o doente mental Adilson Marcelino Alves, o Dequinha, tenha ateado fogo nas lonas do circo. Como você se posicionou em meio a tantas contradições?
    A ambiguidade perseguiu a feitura do livro. Eu me guiei pela sentença do juiz, que apontou Dequinha, Bigode e Pardal como os criminosos. Mas incorporei à narrativa as outras versões, principalmente curto-circuito. Como jornalista, eu quis desde o começo não deixar respostas em aberto, mas, no caso do circo, eram tantas as contradições, as lacunas e as versões que o jeito foi assimilá-las. Mas eu tenho laudo da perícia, que me ajudou a resolver muitas dúvidas.
    Uma das conclusões do livro é a de que a tragédia foi agravada pelo descaso das autoridades. Por quê?
    Mesmo que se admita que a causa foi criminosa, o circo, segundo a perícia, tinha uma lona altamente inflamável, que contribuiu para que o fogo se propagasse rapidamente. Além do mais, ainda segundo a perícia, o circo não tinha saídas de emergência, e as instalações elétricas eram precárias. Mesmo com esses problemas, foi autorizado a funcionar.
    Você tem planos para escrever sobre outros episódios trágicos da história do Brasil?
    Não. A ideia agora é variar, focar em personagens específicos.
    Qual é a grande mensagem que o livro deixa para os leitores?
    Não tem uma mensagem única, mas gostaria que os leitores conhecessem o trabalho impressionante dos médicos de Niterói, que se dedicaram até a exaustão e permaneceram anônimos esses anos todos; Que soubessem quem foram as vítimas e o absurdo que aconteceu a elas. Uma coisa é você dizer que centenas de pessoas morreram numa tragédia. Outra é dar um rosto às estatísticas, mostrar quem são elas, suas histórias, suas alegrias, seus dramas. Além do incêndio, elas sofreram preconceito e abandono - ninguém recebeu indenização. Que se entenda um pouco melhor o que ocorreu para evitar que tragédias semelhantes se repitam.

    Há 50 anos Niterói vivia seu pior pesadelo

    Publicado em: 17/12/2011

    Foto: Arquivo
    Há 50 anos Niterói vivia seu pior pesadelo"Espetáculo de Pavor: Circo da Morte!”, com esta chamada de primeira página, A TRIBUNA noticiou o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, que deixou cerca de 500 vítimas fatais e 120 mutilados, e que neste sábado (17) completa 50 anos. A tragédia foi a primeira e a maior das três grandes catástrofes que aconteceram na cidade. As outras foram a explosão do Bazar Santa Bárbara, no bairro de mesmo nome, em 21 de junho de 1991, que matou 28 pessoas e atingiu aproximadamente 100 casas; e o deslizamento do Morro do Bumba, no Viçoso Jardim, em 6 de abril de 2010, culminando com o saldo de 44 mortos.

    Foram condenados como autores da tragédia, ocorrida na tarde de 17 de dezembro de 1961, Adilson Marcelino Alves, o Dequinha; José dos Santos, o Pardal; e Walter Rosa dos Santos, o Bigode, que confessaram o crime para a Justiça. Os três foram presos após os depoimentos de funcionários do circo, que relataram ameças de vingança de Dequinha.

    Segundo a versão oficial dos fatos, ele foi contratado para a montagem da lona, na Praça do Expedicionário, sendo despedido dois dias depois, por possuir antecedentes criminais. Inconformado, Dequinha passou a rondar o circo. Na estreia, em 15 de dezembro, ele tentou entrar sem pagar, mas foi impedido. No dia seguinte, Dequinha provocou o funcionário que ele acreditava ser o causador da sua demissão, acabou agredido e jurou vingança.

    No domingo (17 de fevereiro), Dequinha chamou Pardal e Bigode para incendiar o circo. Eles se reuniram no Ponto Cem Réis, compraram gasolina e incendiaram a lona do circo. Na confissão, Dequinha relatou que enquanto Bigode jogava gasolina, ele assistia ao espetáculo, se divertindo com o palhaço. Cinco minutos antes do termino do espetáculo, ele saiu e jogou um fósforo na cobertura, começando o incêndio.

    Dequinha e Bigode foram submetidos a um interrogatório público iniciado pelo próprio governador Celso Peçanha. A versão, porém, chegou a ser contestada por alguns policiais e jornalistas, mas os três acusados foram levados à julgamento. Dequinha foi condenado a 16 anos de prisão, em 24 de outubro de 1962, e a mais seis anos de internação em manicômio judiciário, como medida de segurança. Ele foi assassinado em 1973, menos de um mês depois de fugir da prisão. Bigode recebeu 16 anos de condenação e mais um ano em colônia agrícola. Pardal foi condenado a 14 anos de prisão e mais dois anos em colônia agrícola.

    Cerca de três mil pessoas estavam no circo durante o incêndio. Morreram no local 372 pessoas, o restante faleceu em consequência das queimaduras, nos dias posteriores, chegando o total a 500 vítimas. Cerca de 70% dos mortos eram crianças. Como não havia espaço no Instituto Médico Legal (IML) da cidade para tantos corpos, eles foram removidos para as câmaras de estocagem de carne bovina da Indústrias frigoríficas Maveroy. O Cemitério do Maruí também não comportou o número de vítimas, sendo necessário a construção do Cemitério de São Miguel, na cidade vizinha de São Gonçalo.

    O Gran Circus Norte-Americano possuía 60 artistas, 20 empregados, 150 animais e a lona que caiu, em chamas, sobre a plateia pesava seis toneladas.

    Registro da época
    A cobertura realizada por A TRIBUNA ocupou três páginas da edição nº 4717. A matéria começava na capa, na qual foram diagramadas duas fotos, uma dos espectadores, na frente do circo aguardando o início do espetáculo, e outra de corpos carbonizados, amontoados no chão, após a catástrofe.

    Pequenas chamadas, abaixo do título principal, transmitiram ao leitor a tragédia em toda a sua extensão: “Apavorados os espectadores pisotearam uns aos outros na fúria da salvação — Instantaneamente o circo incendiado ruiu sobre a multidão — Duas centenas de mortos e mais de seiscentos feridos — Pilhas de cadáveres — Hospitais abarrotados — Movimento de solidariedade convulsiona o Brasil — O Gov. Celso Peçanha à testa dos trabalhos de assistência — Presidente da República nesta capital”. Na época, Niterói era a capital do antigo Estado do Rio de Janeiro.

    O texto, conforme o estilo jornalístico da época, começou o relato da tragédia com a introdução de que “o ano de 1961 não foi bom para a família fluminense”, abordando a morte do governador Roberto Silveira, ocorrida em 28 de fevereiro, após a queda do helicóptero, no qual estava, em Petrópolis, na Região Serrana.
    A reportagem apresentou como primeira personagem o delegado Edalberto Garcia Aguiar, chefe da Delegacia de Plantão de Niterói. Devido ao calor, ele estava do lado de fora, quando percebeu o fogo se alastrando, pelo lado do Serviço de Abastecimento do Exército. Rapidamente entrou para salvar seu filho e seu sobrinho que assistiam ao espetáculo e, ao fugir, ainda conseguiu carregar o auxiliar de Censura da Polícia, Rafael dos Santos que estava caído e era pisoteado pelo povo em fuga. Pouco depois a lona caiu.

    Elvenice, de 11 anos, filho do comissário Guimes Machado de Carvalho, também escapou com vida. Ele estava na arquibancada e viu as chamas crescerem próximo de onde estava e com uma desabalada carreira, conseguiu passar pela multidão e salvar sua vida. 

    A polícia criou um cordão de isolamento e deteve muitos indivíduos que saqueavam os cadáveres. Inúmeros profissionais da área médica se apresentaram para ajudar, assim como militares e populares se prontificaram para prestar auxílio às vítimas. Oito embarcações do Serviço de Salvação foram disponibilizadas para transportar médicos e medicamentos do Rio de Janeiro para Niterói. 

    O governador Celso Peçanha se manteve à frente da operação, montando dois centros de controles das atividades: um no Hospital Antônio Pedro e outro no seu próprio gabinete, no Palácio do Ingá. Celso Peçanha mobilizou todos os recursos do Estado para atender às vítimas, decretou estado de calamidade pública e lançou um apelo à colaboração da população, da União e dos demais Estados.

    O texto também ressaltou o apoio logístico oferecido, com médicos e medicamentos e hospitais, do presidente da República, João Goulart; do primeiro ministro, Tancredo Neves (o país estava no parlamentarismo) e do governador do antigo Estado da Guanabara, Lopo Coelho. Prefeitos das cidades vizinhas também se colocaram à disposição.

    A presidente nacional da Legião Brasileira de Assistência (LBA), Maria Teresa Goulart, esposa do presidente da República, e a presidente da LBA fluminense, Hilka Peçanha, esposa do governador, mobilizaram-se para obter plasma sanguíneo e soro antibiótico, além de organizar uma equipe médica.

    O jornal também apresentou uma listagem com os nomes de 125 vítimas fatais que já haviam sido identificadas. Muitos corpos foram levados para o Estádio Caio Martins, onde caixões eram construídos. Funcionários do Cemitério do Maruí afirmaram que já não havia mais espaço onde enterrá-los.

    A matéria informava que aquele era o terceiro circo dos irmãos Stevanovich que pegava fogo. O primeiro foi o Buffalo Bill, em 1952, o segundo, o Shangrilá, um ano depois. Os dois arderam quando estavam montados, na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro. Em ambos os casos não houveram vítimas. 

    Danilo Stevanovich levantou a suspeita de que o incêndio fora criminoso, devido a muitas pessoas jogarem pedras e ameaçarem a atear fogo no circo, por não entrarem após o fechamento das bilheterias. Ele acrescentou que teve um prejuízo material de 50 milhões de cruzeiros. Stevanovich também anunciou a intenção de remontar o circo, em 15 dias, e fazer um espetáculo beneficente para as vítimas, no Caio Martins. Porém, dias depois, já em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ele voltou atrás na decisão. A cidade traumatizada só voltou a receber um circo, cerca de 15 anos depois.


    Incêndio no Gran Circo: 50 anos de uma das piores tragédias de Niterói


    Por: Wilson Mendes 01/05/2011| Jornal O Fluminense




    Profissionais da área de saúde que prestaram socorro às vitimas na época da catástrofe receberão honraria da Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro no próximo dia 10


    Gentileza gera gentileza e o carinho doado pelos médicos que cuidaram das vítimas da maior tragédia que Niterói já vivenciou, o incêndio do Gran Circus Norte Americano, será retribuído no próximo dia 10. A catástrofe completa 50 anos em dezembro e os profissionais de saúde que prestaram socorro às vitimas na época receberão honraria da Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro.
    Serão homenageados na solenidade os doutores Fortunato Benaim, da Academia de Medicina de Buenos Aires, e também o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Outros 27 profissionais também serão lembrados pela sua atuação.

    “Logo depois do incêndio, um rádio amador brasileiro difundiu a notícia e pediu ajuda. A transmissão foi captada pelo Ministério da Saúde argentino, que perguntou se eu poderia colaborar”, disse Benaim, que, na época, era diretor do Instituto de Queimados de Buenos Aires.
    O médico afirma que a experiência profissional e pessoal adquirida com a missão humanitária jamais será esquecida.
    Os pacientes também não esqueceram.
    “Eu tinha nove anos e o incêndio mudou minha vida. Tive queimaduras de até terceiro grau, fiquei internada por seis meses e, apesar de toda a dor dos enxertos de pele e das feridas, o carinho dos profissionais foi tamanho que nos encorajava a seguir em frente”, relembra Izabel Pires da Costa, hoje com 59 anos.
    Para o doutor Alcir Chácar, presidente da academia, a homenagem do dia 10 é o reconhecimento pelo esforço em ajudar o próximo a “pessoas como o doutor Benaim, que ainda não recebeu este agradecimento”.

    História -
     O Gran Circus Norte Americano estava montado onde, hoje, existe uma policlínica do Exército, próximo à Praça Renascença, no Centro e a lona estava lotada no dia 17 de dezembro de 1961. Adílson Marcelino Alves, um operário demitido durante o processo de montagem do circo, colocou seu plano de vingança em prática com um galão de gasolina. A lona de náilon rapidamente foi consumida e 500 pessoas morreram queimadas ou pisoteadas.
    Estavam no circo cerca de três mil pessoas e de todas as vítimas, estima-se que 70% fossem crianças. A tragédia é considerada até hoje um dos maiores incêndios em locais fechados do mundo.




    Incêndio no Gran Circo em Niterói completa 50 anos. Relembre

    Em 17 de dezembro de 1961, mais de 500 pessoas morreram na maior tragédia circense  da história

    Jornal do Brasil | Luisa Bustamante


    O domingo parecia mergulhado no clima alegre que se instalara em Niterói com a chegada, dias antes, do que prometia ser o maior e mais completo circo da América Latina. No dia 17 de dezembro de 1961, sob a lona verde e laranja do Gran Circo Norte-Americano, a plateia esperava ansiosa pelo número que encerrava o espetáculo do dia. A trapezista Nena, apelidada de Antonietta Stevanovich, terminava o seu salto tríplice e esperava os costumeiros aplausos, quando um incêndio criminoso lambeu, às 15h45, a lona parafinada que cobria o picadeiro. Nena e os outros dois parceiros trapezistas escaparam ilesos. As outras 2.500 pessoas, não.


    Cartaz do Gran Circo anunciava sua chegada na cidade de Niterói, no Rio
    Cartaz do Gran Circo anunciava sua chegada na cidade de Niterói, no Rio

    Foi assim que, há exatos 50 anos, começou o que se considera “a maior tragédia circense da história”, como noticiaram os jornais da época. O incêndio do Gran Circo deixou um sentimento de aversão aos espetáculos itinerantes em Niterói, e promoveu uma enorme comoção no Brasil inteiro. Fez surgir o profeta Gentileza, e também se tornou um marco na carreira do cirurgião Ivo Pitanguy. Foi neste episódio que João Goulart, presidente à época, chorou na frente dos fotógrafos, ao conversar com uma das vítimas.
    Os números divulgados pela imprensa eram desencontrados, mas a tragédia terminou com um saldo oficial de 503 mortos, a maioria, crianças. Há famílias que contam nunca ter encontrado seus parentes. Hoje, a história detalhada do incêndio do Gran Circo é narrada nas páginas do recém lançado O espetáculo mais triste da história, livro do jornalista Mauro Ventura, pela editora Companhia das Letras. Conta o autor que, em suas pesquisas para estruturar a obra, o que mais lhe chamou atenção foi o fato de quase ninguém acreditar na versão oficial da polícia, de que Dilson Marcelino Alves, 20 anos, o Dequinha, ateou fogo no local com a ajuda de outros dois homens, Bigode e Pardal.


    Oficiais dos Bombeiros trabalhavam para apagar o fogo que botou o Gran Circo abaixo
    Oficiais dos Bombeiros trabalhavam para apagar o fogo que botou o Gran Circo abaixo

    Dequinha estava entre os funcionários contratados provisoriamente pelo dono do circo, Danilo Stevanovich, para ajudar na montagem do picadeiro. Por ser "preguiçoso", o jovem foi demitido três dias antes do incêndio, mas sem antes prometer vingança. Dequinha logo se tornou o principal suspeito do crime, pelo qual confessou ser o autor, dias depois da tragédia. Mesmo assim, conta Mauro Ventura que, ao abordar os personagens que viveram o drama, muitos preferem acreditar na versão de que um curto-circuito pôs fim ao espetáculo.   


    Dequinha acabou confessando ter ateado fogo na lona por vingança ao proprietário do circo
    Dequinha acabou confessando ter ateado fogo na lona por vingança ao proprietário do circo

    “Também me chamou atenção o impacto que a tragédia teve na vida das pessoas, e não só dos sobreviventes”, lembra Ventura. “Assisti a um vídeo feito há dez anos em que os médicos falam do trabalho de atendimento às vítimas, e todos eles choram. Mesmo gente que não viveu diretamente o incêndio, tendo acompanhado apenas pelas revistas, ainda se diz marcada pelas fotos”.
    Prefeitura da cidade estimou em 503 o número de mortos, que não cabiam em um só cemitérioApesar da comoção, Niterói preferiu varrer da sua história a memória da tragédia que feriu quase um país inteiro. Os espetáculos circenses só voltariam ao município em 1975, com a chegada do circo Hagenback, que inaugurou com lona importada à prova de fogo, saídas de emergência, extintores de incêndio e bombeiros de plantão. Anos depois, no local onde se deu a tragédia de 61, o Exército decidiu erguer o hospital Policlínica Militar de Niterói – que neste sábado inaugura, às 11h, um memorial para as vítimas no local. Durante escavações para reforçar a estrutura do terreno, já na década de 80, funcionários encontraram ossadas humanas, resquícios do incêndio durante o espetáculo que, em menos de dez minutos, terminou em cinzas.


    Prefeitura da cidade estimou em 503 o número de mortos, que não cabiam em um só cemitério

    O circo
    O Gran Circo Norte-Americano, de americano mesmo, tinha só o nome e um artista, o palhaço Walter Alex. O proprietário, Danilo Stevanovich, era gaúcho de Cacequi, membro de uma família de sete irmãos que dominavam uma rede de circos na América Latina. Afora uma portuguesa, um japonês, um chinês e um casal francês, os demais artistas eram todos brasileiros do Rio Grande do Sul.
    Era o terceiro circo sob a administração dos irmãos Stevanovich que pegou fogo. Os outros dois, Bufalo-Bill e Shangri-lá, foram destruídos em 1951 e 52, respectivamente, na Avenida Presidente Vargas. Entre as vítimas, no entanto, estavam apenas animais do circo. Estes, por sinal, não eram poucos. Com três elefantes, uma girafa, 12 leões, dois tigres, quatro ursos pardos, dois polares, um chimpanzé, um camelo, um antílope, um cavalo e alguns cães, o Gran Circo se gabava de ser um zoológico itinerante.
    A elefanta salvou
    Uma elefante fêmea que estava no picadeiro se tornou, anos depois, uma das heroínas do incêndio. Pronta para entrar em cena, Semba disparou em uma corrida desesperada quando um pedaço de lona queimada lhe caiu sobre o couro. Ao atravessar a lona, o animal abriu caminho e acabou salvando inúmeras pessoas – mas também fez vítimas em seu trajeto.  Nos jornais da época, o feito de Semba ganhou destaque: “Com a tromba, atirou a distância dois assistentes, que conseguiram salvar-se. As feras escaparam, embora nenhuma delas tenha conseguido abandonar as jaulas. Só alguns elefantes saíram a correr, sendo imediatamente dominados pelos domadores”, escreveu o JB.
    Ivo Pitanguy


    Pitanguy conta ao 'JB' os momentos mais marcantes da tragédia no circo
    Pitanguy conta ao 'JB' os momentos mais marcantes da tragédia no circo

    Quando houve o incêndio, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy trabalhava como professor na PUC, e ainda não tinha inaugurado a famosa clínica na rua Dona Mariana, em Botafogo. No dia, conta aoJB, ele seguia para a Santa Casa da Misericórdia quando ouviu, pela rádio, o anúncio de que o circo pegava fogo.  Pitanguy seguiu para o Iate Clube do Rio e, a bordo da sua lancha particular, atravessou a Baía de Guanabara para se juntar ao mutirão que procurava ajudar as vítimas.
    “Cheguei com uma equipe em pleno momento de comoção. Havia muita gente querendo ajudar, mas também uma enorme desorganização”, lembra o médico. “Lembro de um caso muito heróico de um menino que tinha se salvado e voltou para debaixo da lona para buscar o seu amigo. O que era mais dramático é que eram muitas crianças, e ao lado delas, seus amigos, de modo que devia haver ali pelo menos 500 delas”.

    Os que ficaram
    Muitos personagens, além do menino Pablo, sobreviveram ao incêndio, outros foram salvos por qualquer acaso que os impediu de conferir o espetáculo. O dono do circo, Danilo Stevanovich, por exemplo, não abandonou o negócio e continuou no ramo circense até sua morte, em 2001, conforme conta Mauro Ventura.  Hoje, a família ainda está à frente de três lonas: Le Cirque, Bolshoi e Karton.
    Mas nem todos tiveram a sorte de se refazer como os Stevanovich. Maria José do Nascimento Vasconcelos, a Zezé, viveu durante anos com circofobia e constantes desmaios, diagnosticados por médicos como uma epilepsia adquirida. Salva pela elefanta Semba, Zezé adquiriu mesmo foi o gosto pelos paquidermes e coleciona em casa miniaturas dos animais. Há também os personagens que mostram a superação, caso de Lenir Ferreira de Queiroz Siqueira, que perdeu o marido e os dois filhos no incêndio, e ainda cultiva a alegria de viver.
    Houve também os que se salvaram por algum acaso – ou interferência divina, para os mais supersticiosos. É o caso de Rosane Coelho, que tinha reservado o domingo para ir ao espetáculo, mas por conta de uma febre, foi para um lanche de família na casa de um tio. 
    “Na véspera, eu, meus pais e minha irmã tínhamos dito à nossa avó que iríamos ao circo, o que  não aconteceu”, conta. “Quando soube do incêndio no dia seguinte, minha avó ligava desesperadamente para a minha casa, mas não atendíamos porque estávamos na casa do meu tio. Ela ficou desesperada”, acrescenta, lembrando das kombis que passavam com voluntários pedindo gelo nas casas para ajudar os feridos.
    O profeta gentileza



    O incêndio do Gran Circo Norte-Americano fez surgir o profeta Gentileza, figura conhecida por suas famosas mensagens nas pilastras do Caju. Reza a lenda que o excêntrico personagem enlouqueceu ao perder a família na tragédia, mas Mauro Ventura desmente o mito em O espetáculo mais triste da Terra. José Datrino, nome verdadeiro de Gentileza, trabalhava com uma frota de caminhões.
    Quando o Gran Circo foi incendiado, Datrino recebeu um “chamado divino”, segundo o qual deveria “consolar os desconsolados” que perderam tudo com a tragédia. A partir de então, Datrino virou Gentileza, o profeta. Deixou a família, pegou seu caminhão, comprou 200 litros de vinho e se dirigiu à Av. Rio Branco, em Niterói, para oferecer, de graça, um copo da bebida como consolo para quem quisesse. Gentileza também montou uma casa no local do incêndio, plantou flores e fincou uma placa: “Bem-vindo ao Paraíso do Gentileza. Entre, não fume, não diga palavras obcenas”. Viveu durante quatro anos no local consolando as pessoas que por lá passavam. 
    Outros trabalhos afirmaram que Gentileza preveniu muitas mortes ao oferecer palavras de consolo aos parentes e amigos que iam ao local do incêndio – onde ele estabeleceu morada – para tentar suicídio na linha do trem que passava por perto.  Quando saiu do local do acidente, Gentileza peregrinou pelo país. 


    1 / 14

    O choro de Jango
    O presidente João Goulart visitou o Hospital Antônio Pedro, onde se encontravam as vítimas nos dias que se seguiram ao incêndio. Á época, contou o Jornal do Brasil que, em companhia do primeiro-ministro, Tancredo Neves, e do governador Celso Peçanha, "o presidente parou diante de uma menina de cor, envolta em gaze até o queixo, e lhe perguntou se tudo corria bem. A menina sorriu - e o presidente levou as mãos aos olhos, afastando-se logo. Diante de uma criança que mal respirava, exclamou, quase num sussurro: ‘Não é possível, meu Deus’”. Na época, Jango colocou - ou pelo menos afirmou que colocaria - todos os recursos da União para o Governo do Estado do Rio reforçar o trabalho de socorro às vítimas.

Um comentário: